quinta-feira, março 08, 2007

Mulher

Luísa sobe, sobe a calçada,
sobe e não pode que vai cansada.

Sobe, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Saiu de casade madrugada;
r egressa a casa
é já noite fechada.

Na mão grosseira,de pele queimada
leva a lancheira desengonçada.

Anda, Luísa, Luísa,sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Luísa é nova,desenxovalhada,
tem perna gorda,bem torneada.
Ferve-lhe o sanguede afogueada;
saltam-lhe os peitos na caminhada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Passam magalas,rapaziada,
palpam-lhe as coxas
não dá por nada.

Anda, Luísa,Luísa, sobe
sobe que sobe, sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;

chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada,
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,

puxa que puxa, larga que larga,
toca a sineta na hora aprazada,

corre à cantina, volta à toada,
puxa que puxa, larga que larga,

Regressa a casa
é já noite fechada.

Luísa arqueja
pela calçada.

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada,

Anda, Luísa, Luísa, sobe,
sobe que sobe, sobe a calçada.

António Gedeão

1 comentário:

borboleta disse...

Já viram quão priveligiadas somos?