Queridas deusas e deuses,
Aqui vai um tema para debatermos....
Ao contrário das tradições, a fidelidade ainda é o que era: nunca existiu. Um vínculo amoroso não pressupõe uma relação de castidade com a vida e, mesmo que não pequemos por actos, pecamos seguramente, por pensamentos e omissões. (...)
Quando alguém entra na nossa vida nunca mais sai, nem com "ordem de despejo". E se à primeira vista, existirá, por fora, para cada um de nós, uma relação monogâmica, por dentro, convivemos com todas as pessoas com quem tenhamos tido uma relação (mesmo que imaginária). (...)
Num sentido fundamentalista, a fidelidade é estranha à natureza humana. Os apelos de uma nova relação fazem-se de desejo, mas também de curiosidade e de esperança. Umas vezes, «atropelam-se»; noutras vivem em harmonia. (...)
Não desistirmos de uma pessoa apesar da pluralidade de relações com que tenhamos crescido, não nos transforma numa espécie em vias de extinção, até porque «saltarmos» de relação em relação pode significar, implicitamente, que a pessoa com que nos imaginamos não existe, senão nos nossos sonhos, como espelho mágico de nós próprios.
Amar não é pecado. O amor é ao contrário do Grilo Falante de Pinóquio (recomenda-se que vivamos primeiro e pensemos depois) e, surpreenderia até o espelho da madrasta de Branca de Neve, nos seus melhores dias, porque (sem perguntarmos) nos revela mais bonitos do que, alguma vez, nos ousámos imaginar.
Quando se ama não é para sempre.....mas para além de sempre. Para além de sempre talvez fique a eternidade, que será uma espécie de lugar que nos transforma nos protagonistas do presente de quem amamos (...).
Um grande amor não nos empurra para uma relação de castidade para com a vida, mas transforma a pessoa de quem gostamos num «sol portátil» que nos ilumina e nos acalenta. Em verdade, talvez nunca sejamos fieis a uma pessoa mas a um grande amor por ela. Ser-se fiel ao amor não nos empurra para uma insubmissão canina, mas para contradições lúcidas que estimulem as nossas convicções e que encontrem, no olhar de alguém, a sua liberdade.
(Apanhar sol por dentro - Eduardo Sá em "A vida não se aprende nos livros")


































