quinta-feira, dezembro 15, 2005

"Ferro 3" - Comentários

"Ferro 3" é o título de um filme que fui vêr no sábado passado ao cinema "Passos Manuel" e que recomendo vivamente. O realizador é o mesmo do filme "Primavera, Verão, Outuno, Inverno, Primavera" (penso que é Sul-coreano, mas não me recordo do nome).

Comentário:

O personagem principal decide viver de uma forma desenquadrada, penetrando espaços físicos/casas, e penetrando também os seres que as habitam. Em algumas casas, apenas se dá uma espécie de empréstimo, sem conhecimento, nem consentimento dos donos. Dorme, come, usa o espaço e em troca deixa tudo arrumado, lava a roupa e vai embora. Mas a vida sempre tem preparadas surpresas! Em algumas casas (pessoas?) os desafios são maiores, pelo contacto dos seres que as habitam. Tocou-me o tipo de relação que estabelece entre as duas personagens principais (homem/mulher) e uma casa tradicional (pela forma assim me pareceu). Será que o autor quis evidênciar equilíbrios e formas de ser/estar que se prendem com uma cultura, um passado que se perdeu no advento da ocidentalização mas que algumas pessoas ainda cultivam? Sente-se uma quietude interna na casa e nas pessoas que a habitam. A recuperação deste equílibrio passa por algo da tradição. Algo que se prende ao momento passado mas não limitador da inovação....

Tocou-me ainda o próprio facto da personagem principal nunca falar, e os discursos do filme serem muito reduzidos tendo por isso apostado na imagem, que por outro lado se prende com o quotidiano. Que magia criou o autor para nos prender?

Dentro das surpresas da vida, o personagem encontra o amor, a violência.....

Perante o amor a postura é de uma perfeita comunicação sem a palavra, a não exigência de coisa alguma a fruição do momento e a total compreensão do outro.

Tudo se passa no aqui e agora das casas "assaltadas" e simultaneamente num outro espaço.

A violência surge dos outros para o protagonista (polícia) e do protagonista para os outros. Quando em vários acessos de violência por parte do guarda prisional a resposta é um semi-sorriso e uma perfeita serenidade, estamos perante um personagem cuja liberdade é intocável (tal como Jesus Cristo?). Quando a personagem responde violentamente, servirá esta forma para o situar na dimensão onde a maioria dos humanos vive? Independentemente da conotação moral das acções, a violência faz parte do humano, existe em todos nós. Albergamos dentro de nós TUDO.

No final do filme a triologia amorosa reflete a falência de muitos mitos ligados ao amor, às relações, aos compromissos, enfim.....

Queria só referenciar a frase que encerra o filme, algo que nos situa entre a existência de dimensões várias, sonho/realidade onde acaba e onde começa? São inquietações e questões que me coloco há muito tempo, inclinando-me neste momento, tal como o autor do filme a acreditar que vivemos em várias dimensões. O acesso dá-se quando não se procura nada, só de frui o que se nos apresenta e estamos libertos para vivenciar. Quando despimos os conceitos, os pre-conceitos e fruimos não só com os 5 sentidos mas com outros instrumento que também dispomos.

Falemos menos e comuniquemos mais em "silêncio" e sobretudo vivamos - significando isto, aceder, tocar, abrir. Deixemo-nos tocar...

E as bolas perdidas. O que quererão dizer?

Airam

2 comentários:

maria disse...

eu sou uma chata racional....

airam disse...

Não se trata de racionalidade, o instrumento que usamos ambas foi a razão,as marcas, de uma leitura onde o dualismo/antagonismo homem-mulher, estão muito interiorizadas.
ri-me imenso ao constatar as duas leituras......